O RAPAZ QUE VEIO DO PORTO
A vida estava a correr-lhe bem. Tinha prédios e casas em quase todos os bairros e o dinheiro das rendas amontoava-se à sua frente. Enfim, um cristão está a ser bem sucedido, como nunca o foi antes e zás, vem um evento daquela magnitude e quase dá cabo de tudo. Têm de interromper o jogo de Monopólio porque, naquela entardecer de 1969, havia um emocionante Benfica – Sporting no estádio dos Coqueiros. Nunca se vira loucura tal em Luanda. As ruas cheias, o velho estádio a rebentar pelas costuras e os espectadores a tentarem identificar os ídolos que só conheciam pelos relatos de rádio que eram religiosamente ouvidos aos domingos. Jogo terminado. Os leões tinham asfixiado as águias por 5-2 e a lagartada de Luanda estava em êxtase. Muita cerveja correu nesse dia pelas gargantas exultantes de leões. Consta que as gargantas murchas das águias, numa tentativa de aliviar o “luto”, não deixaram os seus créditos por goelas alheias. Neste ambiente, Edgar e Armando vão apanhar o maximbombo para regressar a casa. A fila na paragem era tão grande, tão grande, que consta que o último tipo da fila, que morava na Corimba, estava à porta de casa sem dar por isso. Chega o maximbas. O relatório da polícia descreve a entrada tumultuosa como “pior que um ataque de quissonde”.
.Edgar e Armando conseguem entrar. O motorista avisou: «não arranco enquanto não saírem as pessoas que estão a mais. Só levo a lotação».
De repente o autocarro começa a andar. Deu a volta ao quarteirão e parou em frente da esquadra da polícia. Uma pausa. Uns instantes depois, dois agentes, dos mais “crescidos”, entram pela porta de frente. “Os cassetetes pareciam ventoinhas”, na opinião de uma testemunha ocular com um olho negro. As pessoas saltavam pelas janelas, pelas clarabóias. A porta de trás também registava um movimento nunca visto.
Edgar está indignado. Dezassete risonhas primaveras carregadas de sabedoria. Em estilo, próprio dos grandes momentos, entra pela esquadra e faz o discurso mais longo da sua vida:
- Não há ninguém mais inteligente que consiga resolver este problema?
Nunca a esquadra tinha vivido um silêncio assim, após tão elevado repto.
- Para me estragar a noite, só faltava um “revolucionário” – murmura o chefe, benfiquista convicto, compreensivelmente aborrecido com as águias, chateado com passageiros indisciplinados e particularmente crítico «com os filhos da mãe dos árbitros que temos por cá». Nestes casos, nada melhor que um “revolucionário” para aliviar a tensão, filosofou.
Nessa noite, a sabedoria do Edgar foi bondosamente incrementada por sábios cassetetes. O pobre do Ed, «numa tentativa de aliviar a pressão», como contou mais tarde, durante uma animada sessão de copos, ainda disse que era adepto do F.C. do Porto. Graaande asneira. Revolucionário e Portista. Era demais, no entender do abalado chefe, para uma única noite. Para aliviar a tensão, em crescendo, devido a esta última declaração, muito desastrosa, o chefe recomendou novo “tratamento” ao indígena do Bolhão, “se possível com um empenho mais vigoroso”. Palavras de graduado.
Os amigos são para estas ocasiões apertadas. Armando, em face do apocalíptico terramoto que caía, literalmente, em cima do amigo, agiu com rapidez. Bate o próprio recorde pessoal, no percurso compreendido entre a Esquadra dos Coqueiros e a Maianga: 14 minutos e 37 segundos. Recorde que continua em vigor. Acorda o pai. Por sinal é polícia. Pelas duas e trinta da madrugada, Edgar é entregue em casa por um agente fardado. Um pai, boquiaberto, ouve, com a máxima atenção, as explicações que o agente transmite, com copiosa variedade de pormenores, sobre o dom de oratória do filho. Nunca se tinha apercebido daquela capacidade discursiva do pimpolho. “Sendo assim, a rapaz tem de ir para a universidade”, pensa o progenitor orgulhoso, ao mesmo tempo que aplica um correctivo ao filho. «Só por causa dos desmandos», explica a um Ed que já vai na terceira dose em poucas horas. Há dias que mais vale não sair de casa. Eram seis da tarde quando um candengue desgrenhado, um olho azulado e outro castanho, com adesivos por aqui e por ali leva, finalmente, os seus parceiros de jogo à falência. Sabiamente, nunca mais interrompeu qualquer partida de monopólio em que participou. Muito menos por um Benfica - Sporting.
História enviada por Edgar Neves
Adaptação de FMF
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